Conversas não programadas - Cheias do Mondego: mito, risco e paisagem cultural
Há temas que é necessário debater e há protagonistas a que urge dar voz, para lá dos diferentes ciclos de conversas que o UC Exploratório assume periodicamente, quatro neste momento e com diferentes parceiros. Temos, assim, as Conversas não Programadas, um ciclo que retomamos com o objetivo de ouvir diferentes personalidades em diversas áreas relevantes para o conhecimento e a dinâmica social.
O tema que estará em debate numa conversa aberta a todos os interessados, Cheias do Mondego: mito, risco e paisagem cultural, propõe uma leitura crítica, territorial e cultural das cheias do Mondego, procurando contrariar algumas visões recorrentes no debate público, em particular a ideia de que novas barragens constituem, por si só, uma resposta suficiente ou sem custos relevantes.
Tomando o caso de Girabolhos como ponto de partida, a sessão procurará mostrar que as grandes infraestruturas hidráulicas têm impactos profundos na paisagem, no património e nas dinâmicas ecológicas e sociais do vale, devendo por isso ser avaliadas para além da promessa imediata de controlo hidrológico. Em paralelo, o Mondego será apresentado como uma paisagem cultural complexa e multifacetada, composta por diferentes realidades – Alto, Médio e Baixo Mondego – com culturas, práticas, camadas de biodiversidade e memórias e tradições próprias, cuja leitura articulada é essencial para compreender o rio e o seu território.
A partir dos acontecimentos de fevereiro, a sessão procurará também desmontar alguns mitos associados às cheias – incluindo leituras apressadas sobre diques, evacuações, ruturas infraestruturais e o papel das obras hidráulicas – mostrando que, mesmo quando o impacto direto não se manifesta de forma uniforme em todo o Baixo Mondego, permanece uma forte potencialidade de desastre sempre que subsistem exposições ao risco cruzadas com vulnerabilidades acentuadas no leito de cheia e na planície de inundação.
Neste contexto, será dada especial atenção às alterações climáticas, que apontam para episódios extremos mais frequentes e mais severos, tornando ainda mais urgente uma cultura territorial de adaptação e prevenção que mitigue impactos e evite colocar em risco pessoas, animais, culturas e bens.
A sessão defenderá, por fim, a importância de integrar na avaliação do risco dimensões por vezes secundarizadas, como a perceção social do perigo, a memória das cheias, a resiliência das populações da bacia hidrográfica – em particular no Baixo Mondego – e o debate contemporâneo em torno da remoção de barreiras e da restituição de maior liberdade fluvial aos rios que foram artificializados.
Esta proposta apoia-se num percurso de investigação, projeto territorial e orientação académica que A. Nuno Martins vem desenvolvendo sobre o Mondego desde 2007. Nesse âmbito, trabalhou como urbanista e investigador no Parque Patrimonial do Mondego, projeto de investigação dedicado à paisagem cultural ribeirinha, às comunidades locais e aos recursos do território, do qual resultaram fóruns locais, rotas patrimoniais, festivais, recolhas etnográficas, exposições, publicações (livro, capítulos e artigos), participações em conferências, e palestras a convite em Portugal em uma dezena de países, incluindo a Rio+20 e a Expo Zaragoza 2008. Esse percurso inclui também a dissertação de mestrado em urbanismo sobre o Projeto Territorial do Parque Patrimonial do Mondego, bem como várias orientações de trabalhos finais do curso de Arquitetura e dissertações de mestrado relacionadas com o rio, a paisagem e o território.
Venha conversar sobre as cheias do Mondego!
Nota biográfica
Arquiteto, doutorado em Arquitetura, docente na Universidade da Beira Interior (UBI) desde 2017 e investigador do CIAUD - Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (desde 2013), A. Nuno Martins é também diretor-fundador do post-master da UBI em (Humanitarian) Architecture, Infrastructure and (Incremental) Housing for Crisis, desenvolvendo trabalho humanitário nas áreas do património, da paisagem cultural, do território, do risco e da resiliência comunitária, atuando em projetos em quatro continentes através da ONG Building 4 Humanity, com sede no Instituto Universitário Justiça e Paz, em Coimbra.
Orador: A. Nuno Martins, Universidade da Beira Interior
Tema: Cheias do Mondego: mito, risco e paisagem cultural
Data: Quarta-feira, 3 de junho de 2026
Horário: 18h00 - 19h00
Preço: Entrada livre, sem necessidade de inscrição prévia