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A União antes da Distinção

29 Out14:00
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16:00
Sala do IEF (6º piso da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
Conferências e Congressos

Trata-se aqui de uma reconstrução sistemática da relação da alma com o corpo em Descartes a partir da hipótese de que a união de ambas é anterior à sua distinção real. Essa anterioridade diz respeito à ordem da experiência: o ser humano vivencia primordialmente a si mesmo como uma unidade de alma e corpo cuja separação, isto é, a possibilidade de um ser concebido sem o outro por ideias claras e distintas, é posteriormente estabelecida pela investigação metafísica. Ora, como duas substâncias heterogêneas podem constituir uma união fundamental? A distinção substancial não tornaria ontologicamente impossível tal unidade, como entenderam os críticos e mesmo tantos discípulos do cartesianismo?



Pretendo mostrar que essa dificuldade não constitui, para Descartes, primordialmente um problema “ontológico” — já que ele assume a união da alma com o corpo como um dado irredutível. A pergunta pela interação entre a mente e o corpo, portanto, não explica a união, mas a pressupõe — é porque há uma coexistência entre a alma e o corpo no ser humano que se pode então indagar pelas causas dessa interação. O problema propriamente cartesiano é então “aitiológico”.



As Meditações já fornecem elementos para compreender a inteligibilidade dessa interação ao mostrarem que a essência das coisas materiais pode apresentar-se de maneira clara e distinta à mente. Por sua vez, os Princípios da Filosofia oferecem as noções conceituais necessárias para precisar a estrutura dessa relação. Descartes distingue “substância”, “atributo” e “modo” e sustenta que pensamento e extensão são os atributos principais da alma e do corpo, isto é, constituem aquilo que cada uma dessas substâncias é e o que permite separá-las. Mas existência e duração são também classificadas por Descartes como atributos das coisas criadas. Proponho denominá-las “atributos generalíssimos”, pois, diferentemente dos atributos principais da coisa pensante ou extensa, pertencem às próprias substâncias criadas enquanto substâncias. Se os atributos principais tornam inteligível a distinção entre elas, os atributos generalíssimos permitem compreender como substâncias assim distintas podem coexistir: enquanto substâncias criadas, ambas existem e, enquanto perseveram na existência, ambas duram. A distinção real não exclui, portanto, sua coexistência.



É precisamente a duração que permite passar da coexistência à interação. A interação entre a substância pensante e a substância extensa não pode ser compreendida segundo a causalidade mecânica que rege as relações entre os corpos. Minha hipótese é que, enquanto atributo generalíssimo, a duração torna possível compreender a sincronização das alterações da alma e do corpo. Isso não significa que ambas compartilhem uma mesma duração, nem que a duração da alma seja da mesma natureza que a do corpo: significa que ambas, enquanto substâncias criadas existentes, duram. É a união que sincroniza suas respectivas durações. No sínolo cartesiano, isto é, no ser humano concreto constituído por essa união, as alterações da alma e do corpo podem assim repercutir umas nas outras segundo essa sincronia. Nesse sentido, as hipóteses psicofísicas do Tratado das Paixões da Alma devem ser entendidas como uma tentativa de explicar uma interação que já está estabelecida.



Em seu alcance mais amplo, essa reconstrução pretende mostrar que o dualismo cartesiano comporta uma concepção própria da causalidade entre alma e corpo, que não implica as contradições que lhe foram posteriormente imputadas e que originaram o chamado problema mente-corpo, bem como as tentativas de elucidá-lo por meio de doutrinas como o paralelismo, o ocasionalismo ou a harmonia preestabelecida.